quarta-feira, 18 de março de 2009

Bate-papo com Mano Chagas

Confira o bate-papo descontraído no restaurante do Picos Hotel com Mano chagas no "Café com Entrevista".


Como surgiu a sua luta em relação à classe negra?


Na verdade, essa luta começa quando dentro de uma vocação sacerdotal que outrora tinha e me desligando da igreja no ano de 1992 e munido de algum conhecimento da discussão racial comecei a ampliar essa discussão e tomar partido na questão racial. Foi onde me filiei a UNEGRO (União de Negro pela Igualdade), entidades a nível nacional, e a partir daí, todas as minhas ações políticas deixaram de ter cunho partidário passou-se a ter uma ação mais noJustificar combate ao racismo, na ocupação que o negro tem na sociedade.

Como acontecia e há quanto tempo você está na militância de combate ao racismo e discriminação?

São 28 anos de luta. Ela se travava, por exemplo, quando era seminarista ela se dava no âmbito da igreja. Fui militante dos agentes pastorais da igreja católica, a partir daí inserido no movimento social que era o movimento de sem terras na época. Fazia o recorte social e então só depois assumi uma entidade quanto militante e ativista negro.


Quando começou o grupo cultural Adimó?

O Grupo Cultura Adimó nasce numa vontade em Picos, mas precisamente no ano de 2005, e começa a fazer uma discussão. Traz a UNEGRO para o Piauí que até então não tinha. E, a partir daí cria-se a base da UNEGRO em Picos e essa base tem como referência o Grupo Cultural Adimó.

Hoje, os menores salários são da população negra e eles também se encontraram nos piores cargos. Qual a forma de combate à discriminação racial que o Grupo Adimó utiliza?

Na verdade, o que a gente entende é que combater o racismo hoje na sociedade é complicado. Primeiro, porque não se pega, não se vê, não se consegue detectar para que se possa extrair. Precisamos fazer com que a sociedade conheça quais são essas práticas racistas. Por exemplo, como a sociedade vê uma religião que é de cultura africana? Ela vê com maus olhos por que não tem contato com essa religião. Então, um de nossos papéis para combater o racismo no aspecto religioso é mostrar para a sociedade através de manifestações culturais, de seminários, de eventos, os elementos da cultura negra. Hoje, só pra se ter uma idéia, o grupo base do Adimó é a companhia de dança e traz no seu foco a questão do afoxé, como base para discussão e mostrar pra sociedade o que é a questão religiosa.

Para se combater o racismo é necessário se entender o que significa. No seu conceito, o que é o racismo?

Na realidade, o racismo é uma aversão, quase uma xenofobia a aquilo que a gente não conhece. O racismo hoje é praticado porque eu não gosto da pessoa, porque eu não conheço a pessoa. Muitas vezes ela sofre a discriminação pela cor da pela. Identificar no contexto geral, o racismo é qualquer ação que contraria os direitos de uma pessoa de ir e vir. De ter os seus direitos como cidadão numa sociedade democrática.

A sociedade picoense é racista?

Eu diria que em Picos existe um racismo cultural como em qualquer situação no Brasil. Por que as pessoas cometem racismo não porque querem ser racistas. Até costumo dizer, como Nelson Mandela que o racismo “ninguém nasce odiando uma pessoa pela cor da pele ou religião, elas aprendem a odiar”. Então se elas aprendem a odiar é papel do movimento ensina-lás a amar.

Em quantas comunidades o grupo Adimó trabalha?

Como base, temos o bairro São José e Morada do Sol, mas atendemos jovens da Boa Vista, Canto da Várzea, Morro da Macambira Exposição. Sem contar com cidade vizinhas que vez ou outras vamos fazer oficinas, participar de debater e fazer palestras. Nós atendemos a microrregião.



Como se encontra as ramificações do Grupo Cultural Adimó? Quais os contatos com outros grupos?


Olha, nós temos uma articulação em nível de estado com várias entidades do movimento negro. Seja Aba, Terreiro Pai João de Aruanda em Teresina, Afoxá, representantes de comunidade quilombolas. E na área esportiva, na prática do basquete de rua, entidades como CUFA.

No mês maio acontece 1ª Semana Municipal de Combate ao Racismo. Como está a organização? E que outros projetos o Grupo Adimó desenvolve ao longo do ano?

O projeto fundamental é o Adimó. O que seria? É ocupar o tempo ocioso das crianças e jovens, dando a eles alternativas de lazer, de discussão sobre o contexto da cultura negra e, sobretudo no exercício da cidadania. Nós desenvolvemos um trabalho na escola municipal Petrônio Portela, onde existem oficinas de hip-hop, capoeira, percussão, dança afro, futsal de rua, basquete de rua, teatro. Além de ações esporádicas que o grupo faz, ou seja, palestras e seminários. Sem contar, três datas que todos os anos marcam a questão racial. Primeiro, em Maio, porque se tratar do dia 13 de maio e em Picos um Projeto de Lei declara é o dia Municipal de Combate ao Racismo. Em Julho, por ocasião do aniversário do grupo. Esse ano está completando dois anos. E em Novembro que é o mês da Consciência Negra. Essas são as datas que o grupo trabalha. Para esse ano, estamos ai com a 1ª Semana Municipal de Combate ao Racismo. Vai se desencadear em quatro ações: a primeira é a Marcha pela Democracia Racial, vai percorrer algumas ruas do centro, com concentração na Praça Félix Pacheco. No dia 14 será realizado o seminário sobre saúde da população negra, onde vamos direcionar o um manual de saúde, feito em parceria com o governo federal. No dia 15, um seminário no tocante a educação que se desencadeara num projeto. Na realidade é uma capacitação para que os gestores na rede pública e privada possam aplicar a lei 10.639. E pra finalizar, a batalha das quadras, onde vamos envolver a arte do futsal no sábado e no domingo o basquete de rua.

Qual o significado do nome Adimó?

Nós queríamos implantar em Picos um Projeto chamado de ‘Tambores para a Vida”, queríamos dar uma característica afro. Foram cerca de 4 a 5 meses pesquisando um nome. Feito o trabalho de pesquisa, encontramos a palavra “adimó” que significa abraço e numa região da África, do povo sauili, significa criança.

Entrevista concedida no dia 17 de março para o site RiachãoNet, Sistema de Comunicação de Picos e Jornal Total.

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